Nos dias 20 e 21 de maio de 2026, Manaus foi centro de um debate estratégico sobre a região amazônica. O Centro Soberania e Clima (S&C) promoveu dois eventos internacionais para discutir a integração entre defesa nacional, combate ao crime transnacional e preservação ambiental, dado que a segurança na Amazônia é hoje indissociável da resiliência climática. A programação dos eventos refletiu a urgência de uma resposta conjunta ao cenário onde mudanças no clima atuam como um multiplicador de ameaças.
A agenda de debates começou no dia 20 de maio com o Simpósio Internacional “Diálogos sobre Segurança e Sustentabilidade na Amazônia”, realizado no Auditório do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em parceria com o S&C e o Programa de Pós-Graduação em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (PPGCASA/UFAM), com o apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e da Rede Amazônica. O evento, que contou com a moderação do jornalista da CBN Amazônia, Patrick Motta Filho, reuniu representantes da defesa, da academia e da sociedade civil para debater os desafios estratégicos da Pan-Amazônia sob uma perspectiva multissetorial.






A programação foi composta por dois painéis e uma sessão de banners científicos. O primeiro painel, intitulado “Segurança, Desenvolvimento Sustentável e Soberania na Amazônia”, concentrou-se na relação indissociável entre esses três aspectos, explorando temas como a proteção do território e o equilíbrio ambiental, que se reforçam mutuamente. Os painelistas debateram como o agravamento das mudanças climáticas e o crime organizado constituem ameaças que exigem políticas integradas, capazes de articular repressão às atividades ilegais. Tais como o fomento a alternativas econômicas sustentáveis baseadas na bioeconomia e na geração de renda para as comunidades locais.
Wilzer Cristiane Lopes Gonçalves, coordenadora territorial do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), destacou que o combate ao crime organizado, a presença estratégica do Estado e a promoção da bioeconomia são pilares para o futuro do bioma amazônico, citando o exemplo prático do Parque Nacional do Pico da Neblina, onde o turismo sustentável com os Yanomami (Projeto Yaripo) protege o território nacional. Em suas palavras: “A segurança, o desenvolvimento sustentável e a soberania na Amazônia são indissociáveis. Não temos como trabalhar dentro de caixinhas separadas e eu creio que isso foi um erro durante muito tempo.” A complexidade dos problemas ambientais transfronteiriços também exigiu o debate sobre governança integrada e transestatal, com foco nas legislações. A Profa. Dra. Marília Gabriela, do PPGCASA-UFAM, apontou entraves operacionais e estruturais para a soberania e segurança, propondo a aplicação da Matriz MIIA ODS (Matriz de Identificação de Impulsionadores e Aceleradores dos ODS) para integrar metas locais, mapear pontos críticos e criar “arquétipos preditivos” no planejamento contra ilícitos.


Os desafios logísticos decorrentes da dimensão territorial e de seus milhares de quilômetros de rios navegáveis, frequentemente utilizados pelo tráfico internacional de drogas e outras economias ilícitas, foram apresentados pelo Vice-Almirante André Luiz de Andrade Félix, Comandante do 9º Distrito Naval da Marinha. Ele explicou que a jurisdição sob seu comando abrange 25% do território nacional em 22.000 km de rios permeáveis. Ressaltou que operações conjuntas, como a Operação Ágata Conjunta Amazônia, cuja última edição foi finalizada em maio de 2026, resultaram em um prejuízo estimado de R$ 1,23 bilhão ao crime organizado, alertando: “A Amazônia é tratada como uma redoma às vezes intransponível e não é verdade. Aqui nós temos um mundo de oportunidades, mas se não for feito com consciência e com sustentabilidade, o resultado pode ser catastrófico.” Outro ponto crítico foi o conceito de “Governança Criminal Substituta”, introduzido pelo Prof. Dr. Antonio de Lisio, da Universidade Central da Venezuela. Ele alertou que facções criminosas ocupam vazios deixados pelo Estado, principalmente após desastres climáticos (como secas extremas e incêndios) que destroem as economias tradicionais locais. Esses grupos aproveitam o cenário de devastação para consolidar grilagem e recrutar populações vulneráveis para economias ilícitas. Utilizam ainda o garimpo de ouro e a extração de madeira para lavagem de dinheiro. Para a sustentabilidade, ele defende o uso de Propriedades Intelectuais Coletivas e selos de Denominação de Origem Controlada para proteger os povos amazônicos
O segundo painel, “Desafios da Governança e da Presença Estatal em Áreas de Fronteira Amazônica”, focou nos obstáculos operacionais de levar a autoridade do Estado a regiões remotas, propondo estratégias de cooperação regional, presença do Estado e integração tecnológica para combater a exploração predatória de recursos e proteger as populações fronteiriças. O Delegado Haroldo Sérgio Lima explicou o funcionamento do novo Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI), fruto do Plano AMAS, iniciativa de integração policial da Amazônia Legal, que consolida a governança regional ao unir polícias federais e estaduais de nove estados da Amazônia Legal, oito países pan-amazônicos, além de órgãos como Interpol, Europol e Ameripol. Ele destacou o uso da tecnologia para direcionar recursos escassos e combater a lavagem de ativos na América do Sul, utilizando o monitoramento via satélite do Projeto Brasil Mais e a “rastreabilidade do perfil isotópico (DNA) do ouro e da madeira” para confirmar a verdadeira origem dos materiais apreendidos.
A ação militar e interagências na proteção de quase 10.000 km de fronteiras foi detalhada pelo General de Brigada Glauco Corbari Corrêa, do Comando Militar da Amazônia (CMA). Operando por meio de 23 Pelotões Especiais de Fronteira (PEFs) essenciais para garantir a identidade e a brasilidade na região, o Exército atua de forma integrada com agências de fiscalização em operações contínuas. Em maio de 2026, a Operação Ágata, realizada em parceria com o Peru e a Colômbia, foram apreendidas 14 toneladas de skunk (uma variação potencializada da maconha), gerando um prejuízo superior a R$1,2 bilhão aos criminosos. O general também citou a contenção do avanço de garimpos ilegais na Terra Indígena Yanomami por meio da Operação Catrimani 2, concluindo que “…militar e meio ambiente é uma simbiose perfeita, não há separação. Nós somos instruídos desde os bancos escolares a isso…”.



A conexão direta entre clima e segurança foi reforçada por Berioska Quispe Estrada, especialista em política climática do Peru e negociadora da UNFCCC. Ela apresentou dados mostrando que a bacia perdeu 7,2% do seu carbono florestal em 24 anos e que o crime ambiental é o principal motor dessa perda. Apenas em 2024, cerca de 48.000 hectares de floresta primária foram queimados na Amazônia peruana. Em contrapartida, demonstrou que a governança territorial afirmativa funciona: terras de comunidades indígenas aliadas a áreas naturais protegidas sofreram apenas 3,4% de perda de carbono florestal, contra 12,9% em áreas desprotegidas, resumindo (em tradução livre): “Onde esses povos estão desprotegidos, o território está desprotegido.” e “Não é uma conversa de segurança. Não é uma conversa de clima. É uma única conversa.”
Por fim, Melina Risso, Diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, destacou o desalinhamento institucional destacou o desalinhamento institucional gerado por uma administração baseada em divisões políticas rígidas que se sobrepõem a lógicas naturais, como bacias hidrográficas. Ela argumentou que as economias criminais em expansão, impulsionadas pelo mercado internacional, são facilitadas pela ausência de regras unificadas entre os países fronteiriços. A mineração em terra indígena, por exemplo, é proibida no Brasil, permitida na Colômbia sem mercúrio e é permitida no Peru com uso tolerado de mercúrio. Ao defender uma abordagem que vá além do combate ao tráfico de drogas para frear a exploração florestal e do ouro, ela concluiu: “…quando a gente vai olhar na dimensão de fronteira… eu me sinto naquele jogo de criança que tenta encaixar quadrado no lugar do triângulo, porque a nossa estrutura institucional ela não tá preparada…”.







No dia 21 de maio, aconteceu o Workshop Internacional “Segurança e Sustentabilidade na Agenda de Cooperação Regional Amazônica”. Diferentemente do simpósio acadêmico, este foi um evento técnico fechado e restrito a convidados, realizado na sede do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), em Manaus. O encontro reuniu autoridades, acadêmicos, representantes de instituições de defesa, pesquisa e sociedade civil organizada. Os debates promovidos em ambos os eventos, assim como em Webinars anteriores do Centro Soberania e Clima, têm como função subsidiar a produção de um relatório final com recomendações para avançar a agenda de segurança amazônica nacional e regionalmente.



