Especialistas discutem a Amazônia como infraestrutura crítica indispensável para a soberania e o funcionamento do país
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No dia 27 de agosto, o Centro Soberania e Clima (S&C) promoveu o webinar “A Amazônia como Infraestrutura Crítica: Segurança Hídrica, Energética e de Saúde para o Brasil”. O evento evidenciou a urgência de reconhecer a Amazônia (e os demais biomas do país) como uma infraestrutura crítica natural, já que sua degradação ameaça diretamente a matriz energética, a segurança alimentar, a saúde pública e a estabilidade econômica do país. 

O debate foi mediado por Mariana Plum, diretora executiva do S&C, e reuniu um painel interdisciplinar composto por: Mercedes Bustamante, diretora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) e membra da Academia Brasileira de Ciências (ABC); Marina Hirota, diretora científica do Instituto Relva e pesquisadora afiliada à Universidade de Princeton e à Universidade Técnica de Munique; Pedro Vasconcelos, médico, pesquisador emérito do Instituto Evandro Chagas e autoridade internacional em arbovirologia; André Lucena, professor do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ e autor líder do IPCC; e Daiene Santos, assessora técnica na Coordenação-Geral de Segurança das Infraestruturas Críticas do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI/PR) e analista ambiental do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Mercedes Bustamante destacou a urgência de incorporar os sistemas naturais ao conceito tradicional de infraestrutura crítica, sistemas essenciais cuja interrupção desestabiliza economias e a própria soberania. Segundo ela, os impactos climáticos já impulsionam migrações forçadas e escassez de recursos, exigindo que o clima seja tratado estrategicamente como pauta de segurança nacional.

Ao apresentar o conceito de Infraestrutura Baseada na Natureza (IBN), Mercedes pontuou que, ao contrário de estruturas rígidas de engenharia cinza, os ecossistemas possuem a capacidade inerente de adaptação e regeneração quando geridos de forma sustentável. A aplicação da IBN integrada à infraestrutura convencional pode cobrir até 95% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecendo a água e a biodiversidade como as bases de insumos que sustentam a agricultura moderna:

“A mudança do clima tem que ser vista efetivamente como uma questão de segurança nacional, porque o que se projeta hoje vai exacerbar uma série de riscos aos interesses da soberania… Se a gente olha a natureza como uma infraestrutura física tradicional, os serviços ecossistêmicos também exigem investimento e gestão estruturada para evitar degradação e apoiar sua regeneração”, pontuou.

Marina Hirota detalhou a dinâmica da floresta como uma “bomba de umidade”, responsável por circular cerca de 6.400 km³/ano na atmosfera, volume equivalente à vazão de água líquida do próprio Rio Amazonas no Atlântico (6.600 km³/ano). Esse fluxo, canalizado pelos Andes rumo ao Centro-Sul, ignora fronteiras geopolíticas, irrigando lavouras brasileiras e abastecendo 19% das chuvas na Colômbia e 33% na Bolívia.

Ela ressaltou a vulnerabilidade do agronegócio nacional diante da degradação das Terras Indígenas (TIs) amazônicas, que funcionam como amortecedores climáticos essenciais. Cerca de 80% da área agropecuária do país é influenciada pelo bioma. Nos nove estados mais dependentes desse regime de chuvas, 57% da renda do setor, estimada em aproximadamente R$ 328 bilhões em 2021, depende diretamente da umidade gerada pelas TIs.

O médico e virologista Pedro Vasconcelos alertou para o papel da Amazônia como uma barreira sanitária natural. O planeta conhece menos de 0,01% do seu viroma, e a Amazônia abriga mais de 220 arbovírus catalogados, dos quais 33 infectam seres humanos. Historicamente, intervenções predatórias de infraestrutura e desmatamento serviram como gatilhos epidemiológicos, rompendo o equilíbrio de vetores e hospedeiros silvestres.

Ele chamou a atenção para a expansão do vírus Oropouche, que desenvolveu mutações de maior patogenia, ultrapassou os limites do bioma amazônico em direção a estados do Nordeste e Sudeste, e teve sua relação com casos de microcefalia congênita comprovada por estudos recentes: “O desmatamento da Amazônia é gravíssimo. Qualquer alteração ecológica desfavorável faz o risco de novos vírus emergentes ser extremamente grande. É prioritário encarar a contenção do desmatamento como medida central de vigilância em saúde.”

André Lucena analisou a dependência hídrica do setor elétrico, pontuando que cerca de 50% da eletricidade do Brasil vem de hidrelétricas, com bacias estratégicas como a do Rio Paraná (responsável por 40% da capacidade instalada) dependendo diretamente da umidade amazônica. Ele comparou o bioma a uma gigantesca usina natural de dessalinização: enquanto outros países gastam bilhões em usinas físicas para obter água potável, o Brasil recebe o serviço ambiental gratuitamente da floresta, mas deprecia esse ativo através da queima e da derrubada.

Sob a ótica do planejamento econômico e climático, André reforçou que o combate ao desmatamento é primordialmente uma estratégia de adaptação e resiliência. “Se você desmata a floresta, tem um ganho efêmero de PIB privado no curto prazo, mas nos períodos seguintes sofre a perda irreversível dos serviços ambientais e uma queda do PIB geral”, afirmou.

Encerrando o debate, Daiene Santos expôs a atuação técnica da Coordenação-Geral de Segurança das Infraestruturas Críticas. O GSI monitora cerca de 1.000 instalações distribuídas em 14 setores prioritários e atua pela consolidação da Política Nacional de Segurança das Infraestruturas Críticas (PNSIC) como Lei de Estado.

Ela destacou que as avaliações de risco do órgão já consideram eventos climáticos extremos como ameaças imediatas às infraestruturas físicas do país, citando o corte de energia e transporte nas enchentes do Rio Grande do Sul e a interrupção da navegação hidroviária e isolamento comunitário nas secas severas da Amazônia. Daiene apontou que:  “A criticidade de uma infraestrutura decorre da escala de seu impacto. Nossos estudos mostram que a vulnerabilidade ecológica da Amazônia ameaça diretamente a operação de reservatórios e a logística de transportes, exigindo articulação integrada entre defesa, transição energética e planos de combate ao desmatamento.”

O Centro Soberania e Clima reafirma seu compromisso em subsidiar formuladores de políticas públicas, forças de segurança e a sociedade civil com análises interdisciplinares baseadas em dados científicos. Ao tratar a integridade ambiental da Amazônia como um ativo inegociável de segurança nacional, hídrica, energética, sanitária e humana, buscamos fortalecer a resiliência estratégica do Estado brasileiro diante das transformações climáticas globais.

Assista ao webinar completo:

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