Os últimos anos têm trazido para o cenário global exemplos concretos que apontam justamente para o que se convencionou chamar de crise do multilateralismo – caracterizada pelo enfraquecimento da cooperação entre os países, por sua vez, marcada por princípios comuns e vinculativos. A invasão russa à Ucrânia e o início do conflito em 2022, o mais recente conflito entre Israel e Palestina a partir de 2023, a guerra tarifária que marcou o comércio internacional em 2025, o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro de 2026, e a recente ameaça estadunidense à Groenlândia são todos exemplos que indicam a instabilidade nessa forma de cooperação entre os países no sistema internacional.
Se por um lado, tal crise pode ser definida como reflexo de ações que desafiam o direito internacional, concebido para regular a segurança coletiva, ordenar o comércio mundial e promover os direitos humanos, por outro, ela também reflete a incapacidade das instituições multilaterais de responderem a alguns dos desafios contemporâneos, dentre eles, a crise climática e a crise da perda de biodiversidade. A incapacidade de se aprovar os chamados Mapas do Caminho – planos de ação para guiar a transição energética e o fim do desmatamento – no documento final da COP 30, sediada na Amazônia brasileira em 2025, demonstra a dificuldade de resposta às demandas de um mundo em ebulição.
Ainda em meio a esse cenário, disputas geopolíticas têm ganhado força no debate sobre segurança, o que, com frequência, faz com que a agenda climática perca destaque no cenário global. O Relatório sobre Riscos Globais de 2026, produzido pelo Fórum Econômico Mundial, aponta que as preocupações ambientais têm perdido prioridade no curto prazo. O chamado “confronto geoeconômico” é apontado como o principal risco com maior probabilidade de desencadear uma crise global significativa em 2026, seguido de “conflito armado entre os Estados”. No cenário dos próximos 10 anos, por sua vez, o Relatório aponta os riscos ambientais como os mais graves, e os “eventos climáticos extremos” são identificados como o principal risco. Ademais, metade dos 10 principais riscos identificados nesse cenário dos próximos 10 anos é de natureza ambiental.
Essa perspectiva, segundo a qual as preocupações ambientais perdem prioridade no curto prazo, é preocupante. Com os três últimos anos – 2023, 2024 e 2025 – ultrapassando o limite de 1,5°C definido pelo Acordo de Paris, de acordo com o Copernicus, as consequências deixaram há muito de ser apenas ambientais. Os eventos climáticos extremos – secas e chuvas intensas, ondas de calor, incêndios, etc – cada vez mais intensos e frequentes, têm impactos severos, por exemplo, sobre a produção de alimentos, sobre as economias dos países, modos de vida e bem-estar das populações, o que nos compele, enquanto sociedade, a trazer essa discussão urgente para o presente.
Diante desse contexto, o webinar propõe um espaço de reflexão crítica sobre os limites e as possibilidades do multilateralismo em um mundo marcado por crescentes tensões geopolíticas e urgências socioambientais, com especial atenção ao papel do Brasil. Ao reunir especialistas de diferentes áreas, o encontro buscará discutir como o país pode se posicionar estrategicamente nesse cenário, contribuindo para a reconstrução da cooperação internacional e para a recolocação da agenda climática no centro das prioridades globais, a partir de suas capacidades diplomáticas, ambientais e políticas.
Alguns questionamentos iniciais incluem:
- Que papel o Brasil pode desempenhar nesse cenário de fragmentação internacional para fortalecer o multilateralismo e liderar esforços climáticos, especialmente a partir de sua posição geopolítica e de seus ativos ambientais?
- De que forma a atual crise do multilateralismo limita a capacidade da comunidade internacional de responder à crise climática e à crise da perda de biodiversidade?
- Como as disputas geopolíticas e o chamado “confronto geoeconômico” têm deslocado a agenda climática para o segundo plano no curto prazo, e quais os riscos dessa despriorização para o futuro global?
Essas e outras indagações serão debatidas pelos especialistas:
Sergio Etchegoyen (moderador) é General do Exército da reserva. Foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (maio/2016 – dezembro/2018). Ingressou no Exército em 1971, na Academia Militar das Agulhas Negras. Como oficial-general (novembro/2004 – maio/2016) comandou a 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, foi assessor especial militar do ministro da Defesa e cumulativamente chefe do Núcleo de Implantação da Estratégia Nacional de Defesa. É cofundador do Centro Soberania e Clima.
Eduardo Viola é Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (1982). É Senior Fellow do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e Professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília e na Fundação Getulio Vargas. Foi professor visitante em diversas universidades internacionais, entre elas: Stanford, University of Colorado Boulder, University of Texas at Austin, University of Notre Dame, Universidade de Amsterdã, Universidade Nova de Lisboa e Universidade de Lisboa. Suas principais áreas de pesquisa são a Economia Política Internacional da Mudança Climática, Globalização e Governança, Democracias e Autocracias e Política Externa Brasileira. Viola publicou sete livros, mais de oitenta artigos revisados por pares em periódicos acadêmicos e mais de cinquenta capítulos de livros em vários países e idiomas. Possui mais de 500 citações na Web of Science e mais de 6.900 citações no Google Scholar. Seus livros mais recentes são Brazil and Climate Change: Beyond the Amazon (Nova York: Routledge, 2018) e Climate Change and Biodiversity Governance in the Amazon: At the Edge of Ecological Collapse? (Routledge, 2022).
Selma Lúcia de Moura Gonzales é Doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP-2008), mestre em Gestão do Espaço Regional pela Universidade de Brasília (UnB-1999), especialista em Ensino de Geografia e graduada em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-1995). Atualmente é professora e pesquisadora na Escola Superior de Defesa (Brasil), no Programa de Pós-Graduação em Segurança, Desenvolvimento e Defesa, linha de pesquisa Geopolítica, Diplomacia e Estratégia, além de coordenadora acadêmica do curso de Geopolítica e Defesa, ofertado em parceria com a Fundação Alexandre de Gusmão, e professora nos cursos “Diplomacia e Defesa” e “Altos Estudos em Defesa”. Pesquisa os seguintes temas: geopolítica, crises internacionais e forças armadas e sociedade.
Claudio Angelo é Coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima e autor dos livros “A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima” (2016) e “O silêncio da motosserra – quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia” (2024), ambos publicados pela Companhia das Letras.
PROGRAME-SE E PARTICIPE!
🗓 26 de fevereiro de 2026
🕒 11h00 às 12h30



