O Centro Soberania e Clima realizou, em 27 de fevereiro de 2026, o webinar “Os desafios da agenda climática diante da crise do multilateralismo”, reunindo especialistas de renome para analisar o complexo cenário internacional em que a fragmentação da cooperação global colide com a urgência das metas ambientais.
O debate foi mediado por Sergio Etchegoyen, Presidente do Conselho do Centro Soberania e Clima, e contou com as contribuições de Eduardo Viola, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e da Fundação Getúlio Vargas, referência em política climática global; Selma Gonzales, professora da Escola Superior de Defesa e especialista em geopolítica e segurança; e Cláudio Ângelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, jornalista e autor de obras de referência sobre mudanças climáticas e Amazônia.
Ao longo do webinar, os participantes analisaram a crescente erosão dos mecanismos multilaterais, marcada pelo ressurgimento de nacionalismos, pela priorização da segurança energética e militar e pelo enfraquecimento de compromissos globais como o Acordo de Paris. Destacou-se a existência de uma “dissonância entre ciência e política”: enquanto os dados científicos apontam para trajetórias de aquecimento críticas, as decisões estratégicas dos Estados são cada vez mais condicionadas por tensões geoeconômicas e disputas por autonomia.
Nesse contexto, foi debatida a ascensão dos chamados “clubes de clima”, descritos como um modelo de relação entre estados que têm operado paralelamente ao sistema multilateral tradicional. Eduardo Viola sublinhou que a viabilidade deste modelo depende do “apoio de atores chaves como a União Europeia e China”. Observou-se que diante da retração de lideranças globais e do enfraquecimento de consensos, a governança climática tende a se reorganizar em blocos com impactos diretos sobre cadeias produtivas e fluxos comerciais.
A professora Selma pontuou que a lentidão da transição energética gera “cada vez mais adesão” a esses grupos, enquanto Cláudio Ângelo destacou que o Brasil possui “vantagens comparativas para prosperar” nesse cenário. Ao capitanear propostas inéditas na COP 30, o país deixa de ser espectador para atuar como ponte estratégica entre o Norte e o Sul Global, utilizando seu capital diplomático para liderar essa nova configuração geopolítica.
O papel estratégico do Brasil
Eduardo Viola enfocou a posição estratégica do Brasil no cenário internacional e a importância dos minerais críticos, ressaltando que “o lugar do Brasil no mundo cresceu muito durante a era da unipolaridade americana, mas agora sua capacidade de promover o multilateralismo é limitada”. Ele destacou que o país possui um “super ativo” em terras raras, essencial para a transição energética e para cadeias de Inteligência Artificial, conferindo ao Brasil poder de barganha frente a grandes potências como a China e os EUA.
Selma Gonzales trouxe a perspectiva da geopolítica e da segurança, relacionando a agenda climática à autonomia e soberania nacionais. Ela afirmou: “o fato de negar um fato não o faz desaparecer, os processos biológicos não obedecem fronteiras políticas” e destacou que a liderança brasileira depende da valorização do conhecimento das populações tradicionais e da sua expertise em conservação ambiental, propondo um “multilateralismo ambiental” baseado na exportação de tecnologia e experiência para outros países tropicais.
Cláudio Ângelo concentrou-se nas questões ambientais e de governança interna, enfatizando a urgência de zerar o desmatamento na Amazônia e no Cerrado como estratégia de soberania e alertando que “quem acha que é rico o suficiente para se proteger de um mundo de 3°C é melhor pensar de novo. Não adianta aumentar muros se a migração será interna”. Ele também destacou a necessidade de combater o crime organizado que financia a destruição ambiental e de avançar na transição energética, transformando a Petrobras em uma empresa de energia integrada e diversificada.
Apesar do cenário internacional adverso, o Brasil foi apontado como um país com ativos estratégicos relevantes para a nova economia climática. Além de deter a segunda maior reserva mundial de terras raras, o país possui as condições de potência agrícola e ambiental, com matriz elétrica renovável, o que o posiciona de maneira competitiva em um cenário global de descarbonização.
Os especialistas enfatizaram a necessidade de fortalecer políticas internas para transformar potencial em liderança efetiva, estruturar políticas robustas de adaptação a eventos extremos, com fortalecimento da Defesa Civil e modernização das capacidades estatais para resposta a desastres, integrando segurança nacional e resiliência climática. Segundo eles, o Brasil dispõe de recursos naturais, tecnológicos e diplomáticos para assumir protagonismo na nova economia climática. Entretanto, o desafio central é converter esse potencial em exercício efetivo de soberania, segurança e prosperidade econômica, conciliando a defesa do território, a integridade ambiental e o desenvolvimento nacional.
Ao promover o webinar, o Centro Soberania e Clima reafirma seu compromisso com a produção de conhecimento estratégico e com a construção de pontes entre defesa, desenvolvimento e sustentabilidade. A instituição consolida-se como espaço qualificado de reflexão sobre os grandes temas nacionais, contribuindo para que o Brasil exerça, de forma soberana e responsável, seu papel na nova ordem climática internacional.
Por Idayane Ferreira
Assistente de Comunicação



